Laura Gorski – Projeto Vitrine 2015

Todo tempo está em suas mãos fosse um mar feito de uma só onda
curator Vitor Mizael

Opening Saturday June 13th at 2:00 pm
Untill July 7th
Visiting Fridays from 2:00 pm to 7:00 pm
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In the Project Todo tempo está em suas mãos fosse um mar feito de uma só onda, conceived for .Aurora’s Mapoteca, the artist Laura Gorski creates a device which is only activated by visitors interaction, that is, the opening and closing of Mapoteca‘s drawers.

The drawings, specially made to fit in the drawers, represent moments on the continuous flow of sea movement. They’re built by a sequence of thin lines which, in it’s juxtaposition relation, recreate the volume and structure of sea waves. By hadling the drawers, the visitor can determinate the speed of wave’s movement.

The drawer’s closing gives back the artwork to it’s abeyance untill it is open and activated again.

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(Portuguese version)

No projeto Todo tempo está em suas mãos fosse um mar feito de uma só onda, concebido para a mapoteca do Projeto Vitrine no .Aurora, Laura Gorski cria um dispositivo que é ativado pelo abrir e fechar das gavetas.

Os desenhos feitos para cada gaveta representam fragmentos do fluxo contínuo do movimento do mar – são formados por uma sucessão cumulativa de linhas que, em sua relação de justaposição, recriam os volumes e estruturas das ondas do mar.

A ideia de colocar os desenhos dentro das gavetas está diretamente ligada à intenção de envolver o espectador no trabalho, eles são acessados apenas quando a gaveta é aberta – no abrir e fechar se dá o movimento que remete ao fluxo das ondas que deu origem ao trabalho.

Por meio do deslocamento das gavetas, o espectador determina a velocidade com que as ondas vão e vem dando o tom e o tempo do movimento que pode ser alterado a cada nova ação. A possibilidade de revezar a ordem das gavetas que serão abertas e fechadas em cada momento permite que esse fluxo criado mude constantemente. O som gerado pelo deslizamento das roldanas também interfere no ritmo e na maneira de manuseá-las, agregando uma outra camada ao projeto.

O fechamento das gavetas devolve o trabalho ao estado de suspensão até que ele seja ativado novamente.

VITRINE-Flyer-LauraGorski-EN

Vitor Mizael Eu sinto no seu trabalho uma questão espiritual, acho que o silêncio me remete a isso. No sentido de introspecção, de olhar para si, como uma meditação.
Laura Gorski O ato de desenhar para mim acaba sendo um ritual e exige uma concentração que esbarra nessa questão que você está trazendo. O momento do desenho é de profunda conexão. O jeito como eu desenho, a precisão das linhas, essa relação de justaposição entre elas em um desenho muito controlado, exige uma presença.
VM Mas você concorda que o resultado do seu trabalho carrega essa questão?
LG Não sei, a gente não controla como o trabalho chega nas pessoas. Mas sem dúvida uma intenção que tenho com o trabalho é a criação de um espaço de silêncio por meio da redução de  elementos. Creio que a concentração que o desenho me pede e o tempo do desenho em si refletem sim no resultado final do trabalho. Eu persigo os elementos estruturais nas paisagens que encontro – aquilo que mantém as coisas em pé – e as recrio eliminando todas as outras informações deixando que apenas as estruturas primordiais contem a história daquele lugar.
VM Me parece que o seu trabalho nasce com um aspecto de generosidade, você está compartilhando com a gente algo que é muito teu, um espaço que, normalmente, seria reservado para si, protegido. Você compartilha a sua fragilidade. O momento é teu mas parece que você quer que ele aconteça pra todo mundo.
LG Pra mim a presença do espectador no trabalho é muito importante. O trabalho se fecha no olhar do outro.
VM Seu trabalho é muito direto, austero, ele não está preocupado em florear. Ele é a estrutura, ele é preto e branco, direto ao ponto. Quando eu vi o seu projeto para o .Aurora, o trabalho me fisgou pelo silêncio e por essa exigência de um tempo de introspecção. Um espaço colocado no centro de São Paulo que funciona quase como uma cabine anti-ruído, de um momento meu comigo mesmo através do seu trabalho. Isso é falar do que é importante.
LG Eu preciso desenhar para voltar pra mim mesma. Para poder me escutar. O tempo do desenho é um elemento fundamental, eu o considero matéria para o trabalho.
VM Como começou o projeto da mapoteca?
LG Esse projeto teve início há um ano e meio quando eu comecei a fazer esses desenhos de fragmentos contínuos do movimento do mar, em constante transformação. Os instantes congelados nos desenhos representam o ponto limite em que a onda avança sobre a areia antes de recuar, existe um segundo de suspensão neste ponto. É esse segundo que eu tento trazer para o desenho.
O nome “Todo tempo está em suas mãos fosse um mar feito de uma só onda” é um trechinho do livro do Mia Couto “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”. No projeto para o .Aurora os desenhos estão “guardados” dentro da mapoteca, em suspensão. É preciso que alguém abra as gavetas para que o trabalho aconteça, o expectador é o agente do movimento. Quando as gavetas se fecham o trabalho volta para o repouso até que elas sejam abertas novamente. No abrir e fechar se dá o movimento que remete ao fluxo das ondas que deu origem ao trabalho. Por meio do deslocamento das gavetas, o espectador determina a velocidade com que as ondas vão e vem, dando o tom do movimento que pode ser alterado a cada nova ação.
VM O suporte do trabalho é um meio de ativar o tempo do espectador. O primeiro estímulo é o som da mapoteca mas ele dispara as memórias sonoras de cada um a partir da imagem que se está vendo. A mapoteca remete ao escritório, é um móvel conhecido, familiar.
LG Me interessou reverter o uso da mapoteca. Eu achei interessante habitá-la de um outro jeito. Ao invés de ela armazenar o desenho ela vira o próprio trabalho. Esse projeto está ligado também com um desejo meu do trabalho se relacionar mais diretamente com o espaço físico e não apenas com o espaço criado dentro do território do papel.
VM Como é a relação do seu trabalho com a cidade?
LG Eu persigo um tempo no trabalho que é oposto ao ritmo da cidade, fico tentando abrir espaços, brechas, nessa dinâmica devoradora.
VM Eu me interesso muito pelos bastidores, pelo funcionamento das coisas fora do horário estipulado, no seu trabalho da Vitrine do MASP eu tive imediatamente essa sensação “Nossa, o metrô completamente vazio”.
LG O trabalho que fiz nas estações de metrô, tanto em Berlim como em São Paulo, partiu muito dessa fantasia dos espaços vazios e de pensar se eles de fato existem quando param de funcionar. Eles são feitos exclusivamente para a circulação e o deslocamento de pessoas, são lugares de passagem, de conexão de um lugar com outro, ninguém vai a uma estação simplesmente para estar nela, para passear, não se olha para elas como potência de espaço.
VM Você acha que isso reflete no seu trabalho para o Projeto Vitrine do .Aurora?
LG De certa forma sim, no sentido de tentar criar um intervalo na dinâmica da cidade. O .Aurora é um espaço no centro de São Paulo, envolto por um certo caos e o trabalho que eu proponho ali convida a um outro tempo. Me interessam essas camadas de tempo coexistindo. Eu persigo um tempo, no trabalho, que se aproxima mais do tempo da natureza, quer dizer, eu gostaria de chegar mais perto disso, mas estamos muito distantes do verdadeiro tempo da natureza.
VM De certa forma você está catalogando o seu olhar e as suas posturas no mundo, você está tentando se entender ao olhar para a natureza. É um estado contemplativo, meditativo.
LG O trabalho “Todo tempo está em suas mãos fosse um mar feito de uma só onda” carrega a ideia de conter o incontível, guardar o inguardával, um desejo “apreender” algo de uma potência infinita.

Assista o teaser!